A cadeira dobra-lhe a pele tatuada, respira o fumo de um novo cigarro sob a palidez da lua cheia. O quarto está repleto de espirais de fumo, os seus cabelos estão despenteados, o vestido foi atirado para o chão, ela perde a sobriedade entre tragos de vinho e licor de há horas atrás, o sangue já não pulsa sozinho, senta-se no canto escuro do quarto e contorna os joelhos com os braços, uma lágrima escorre pelo rosto gélido. Os pulsos cerrados fazem realçar as veias trepidantes. O passado percorre na sua cabeça à velocidade vertiginosa de um suspiro. A respiração profunda e suave como se reencontrasse a vida por detrás dos olhos fechados, pousa os pés no chão frio e dirige-se à casa de banho, com as lágrimas a escorrerem-lhe pelas maçãs do rosto. Encheu a banheira de água quente e entrou, mesmo vestida, mergulhou a cabeça por instantes apagados sustendo a respiração, só para saber a sensação de estar desvanecida, mantinha os olhos abertos, era capaz ver o mundo, turvo, mas conseguia. O seu corpo inerte, a cabeça a mil, fatigada pelo passado cruel. Sim, é como morrer, mas as memórias continuam a ecoar no seu interior. Tinha chegado a hora do ritual, mas desta vez seria diferente, ela queria acabar com aquele sofrimento imundo que a possuía. Levantou-se, assim mesmo encharcada e pousou os pés no tapete molhado, um arrepio subiu as suas costas até ao seu pescoço delicado. Agachou-se e abriu a gaveta, dela retirou uma caixa, dentro estava uma faca e uma caixa de calmantes, encheu a mão de comprimidos, uma lágrima escorreu pelo seu harmonioso rosto, não pensou duas vezes, tinha chegado o momento, tomou-os todos. Voltou a entrar na banheira e com ela levou a faca aguçada, direccionou-a ao seu braço, fez um pequeno corte na palma da mão, talvez apenas para ver o sangue escorrer pelos dedos enrugados da água. As gotas de sangue misturavam-se lentamente com a água tornando-a rosada, as lágrimas não cessavam, mergulhou gentilmente a mão na água, a dor era intensa, mas a dor física já não a incomodava, ela apenas desejava terminar com o sofrimento causado pelas tormentas já decorridas. Voltou a pegar a faca fria e ensanguentada, passou-a por antigas cicatrizes, reabrindo as feridas até agora saradas, repetiu o mesmo ritual nos dois braços e submergiu-os na água rosada que depressa se tornou vermelha. Os comprimidos começavam agora a actuar, ficou sonolenta. Era hora, agarrou na faca e fez dois cortes verticais sobre as veias, o liquido vermelho não estancaria e dentro dos momentos adormeceria. Os gentis olhos começavam a serrar, ela deitou-se, tapando de agua a sua cabeça enquanto uma nuvem tapou a lua, ela adormeceu, o ar já não chegava aos seus pulmões, o órgão vermelho tinha deixado de bombear o sangue. Lá está ela, deitada na banheira, inerte, submersa na água vermelha, a sua expressão serena mostra a tranquilidade à qual tinha chegado. O coração parou, está morta.
