Perdida na cidade

Os cabelos ondulam ao sabor do vento, compridos não querem parar. Avista o pôr-do-sol diante dos seus olhos. Casas e prédios a perder de vista. Tudo isto é tão diferente, tão mais frio e triste, tão mais cheio de coisas e vazio de sentimentos e beleza. Como se o estuque e o cimento pudessem substituir as pétalas a voar da flor da amendoeira, como se o barulho rude dos aviões pudesse alguma vez substituir o doce chilrear dos pássaros, como se as sirenes aflitivas e as buzinas simultâneas se pudessem comparar com o remexer vivo dos melros nas folhas secas do chão, como se o cheiro das máquinas na cidade conseguisse um dia suplantar a mistura de aromas do campo. E a noite chega, o sol esconde-se triste e esfaqueado por entre os arranha-céus, a lua cheia aparece quase transparente no lado oposto, desvanecida dentro duma plataforma de fumo e poluição. Uma noite onde as estrelas não estão plantadas no céu, estão nas ruas de alcatrão, amarelas, verdes, vermelhas...de tantas cores que perdem a beleza. Olha para o céu, estava à espera das estrelas...mas com tanta luz na terra elas fogem, não chegam aqui, não há estrelas, costumam ser elas que a guiam, sente-se perdida.


- Kasti Valo

Já nem sabe quem é

Há dias em que não sabe quem é, dias em que não reconhece quem a olha serenamente no espelho. Mas nesses dias também sabe que quem não sabe dizer quem é pode ser quem eu quiser. E ela pode permanecer esquecida numa almofada de sofá sem que a vida a incomode. A capacidade de sonhar é infinita, bem o sabe. Mas que fazer quando a mente está cansada de montar e desmontar caminhos para nós e o coração se encolhe mais um pouco ? De cada vez que a alma é fraca demais para realizar os sonhos ? Mesmo quando não sabe quem é sente que algo se quebra, qualquer coisa lá dentro quando a vida a faz tropeçar e cair, mesmo quando não é ela que sonha sente a alma pintar-se de negro à certeza da impossibilidade dos caminhos. E quando há dor na incapacidade de se reconhecer a vida sussurra-lhe ao ouvido que se perdeu. Ela responde calmamente que não pode estar perdida porque nunca soube qual era o caminho, qual era o destino. Sabe porque é que não se reconhece. De cada vez que aquilo que constrói cai ao chão e se estilhaça em mil pedaços perde um pouco de si, desaparece um pedacinho de quem é. Quando tenta reconstruir tudo outra vez, fica com os dedos dormentes e gelados por estar a colar todas as peças e no fim elas voltam a desmoronar-se aos seus pés. Quando sente que já não há nada a fazer. Sabe que não se reconhece porque há um bocadinho de si que fica sempre esquecido no meio das peças quebradas da vida.

- Kasti Valo