Maresia, tu que o chamas

A brisa nos seus cabelos, longos, loiros. O toque gentil da areia, húmida na sua frágil pele. O sabor da água, salgada, nos seus lábios, frios e gretados. O seu peito, contra a sua prancha, escorregadia. A adrenalina que percorre freneticamente o seu cérebro e lhe proporciona essa pulsação acelerada que tanto procura nas supérfluas ondas. A sensação de paz emerge, como adora cair na água gelada, enquanto a sua prancha se afasta, lentamente levada pela corrente, e, por mais desconfortável que seja, a água que lhe inunda os ouvidos proporciona a vontade de voltar a subir a prancha, navegar sobre as águas, cortar as ondas, um dia no mar, um surfista, encantado pela maresia, seu cheiro e a sua cor translucida e pela areia, sua textura árida, granulada, relaxante. A sensação de estar ali, molhado fá-lo sentir-se realizado, mas faz-se tarde, tem agora que abandonar as águas e voltar para casa, de certo que voltará ao mar, as ondas chamam-no, cativam-no.
- Kasti Valo

Os lobos




O uivar impaciente dos lobos corrompe-lhe os sonhos, os olhares atentos espreitam pelas altas colinas em busca de outra refeição, aproximam-se com cautela por entre os arbustos, as suas pernas tremem freneticamente receando o cravar dos brancos dentes sobre a pele macia de um ser que outrora dizia não ter medo de nada. Os lobos tornaram-se horrendos, separada a matilha, preparada a emboscada, começa assim a matança. Um lobo, grandioso, aproxima-se por de trás das suas costas, num salto repentino morde a sua perna, afasta-se durante um momento, sem nunca deixar de fixar a sua presa o seu olhar vazio e esfomeado descrevia a sua sentença, morreria naquela noite. O lobo lançou-se a si e, de repente tudo ficou negro, o odor da aflição que sentia paira no ar, sente os lençóis quentes por de baixo do seu corpo aterrorizado e gélido, acende a luz para certificar-se que tinha terminado, está no seu quarto, acordou por fim.

- Kasti Valo

Paradigma


Tenta brincar com as palavras, fazer com que dancem ao som de melodias nunca antes ouvidas, escrevê-las num fundo azul límpido como o nobre céu que paira sobre nossas cabeças. Hoje, num dia calmo e sereno, não é capaz de o fazer, as suas palavras não se redigiram etéreas como desejava mas sim frias como o vento nórdico que lhe esfriou o outrora cálido sangue seu, tem sido assim faz muito tempo. Palavras, elas transparecem o que sentimos e neste momento insípido condizem com a sua pesarosa alma, receia escrever, não tem desejo de escrever sobre a furna gélida na qual está encurralada ou sobre a sua dignidade agora em putrefacção  deseja sim escrever sobre o quão afortunada se sente, apenas se isso transpusesse o desejo, se ela o sentisse, se fosse a realidade… O cérebro perdulário está notoriamente cansado, ela lastimosa. Naufragou a desgraça sobre a doce e gentil fêmea, o nauseabundo rasto de amargura reflecte a nebulosidade da sua alma, enquanto ela é navegante numa expedição sem rumo. Pousa a caneta e continua a sua jornada, neste caminho paradigmático que parece não ter fim.

- Kasti Valo