Cansada

Os dias passam, os anos arrastam-se, as lembranças atormentam-me. Sente-se fraca, um pequeno ponto na imensidão. Lembra-se de todos os actos que magoaram, das palavras que feriram, todas as flechas lançadas ao seu coração, mágoas antigas, mentiras, decepções, ilusões, contudo luta e tenta sobreviver mas sente-se cansada. Cansada das lembranças de amizades, amizades essas que julgou serem infinitas mas que se perderam à deriva, naufragaram a cada acto descabido. Vai relembrando os momentos passados, aqueles que nunca mais voltam. Mas, continua a remar, tenta salvar-se, mas o pesadelo do presente assusta-a. Sente-se cansada, cansada de navegar e não encontrar o porto seguro onde se possa proteger do futuro . Sente-se cansada, sem forças para lutar, sente-se a afogar, no mar dos seus olhos, quer acabar esta viagem, quer finalmente encontrar paz.



- Ecstasy Sullivan

Fugiram-lhe as palavras

Às vezes as palavras ficam perdidas no fundo de um olhar, penduradas num sorriso ou outro. E quando damos por elas a repousar numa escada luminosa da nossa alma. Deixam-se ficar a ver o por-do-sol e a pedir-lhe que demore mais desta vez. Há manhas em que saltitam no sorriso do sol, irrequietas e felizes e nos salpicam os dias de alegria mas também há dias em que a noite é o único consolo e as palavras se escondem atrás de portas trancadas pelo tempo, se reduzem a brechas de luz esquecidas no amanhecer, a reflexos do céu nas águas mais calmas, é nessas horas em que as palavras se entristecem e pintam as frases com tinta preta e escondem segredos, falam baixinho sussurram até, têm medo de fazer sangrar as feridas e rasgar de novo a pele. São fortes, tão frágeis. Esquecemo-las tantas vezes nos parapeitos das janelas, nas ombreiras das portas de madeira roída e antiga e elas permanecem como se tivessem nascido ali, num canto que o sol esqueceu, num abrigo da chuva. Usamo-las com tanto desprezo que nem o gelo é capaz de as abraçar e as gotas de chuva fria não chegam para as consolar. É por isso que às vezes, elas fogem de nós.
-Kasti Valo

Há algo em ti

Há algo em ti que a fascina, que lhe dá vontade de sorrir. Há algo no yeu olhar que a intimida, que a perturba. Há algo na yua postura que lhe chama à atenção, algo em ti que a faz vê-lo no meio da multidão, admirar-te, querer-te, desejar-te. O teu sorriso prende-a aos teus lábios, a tua forma de falar, teu rosto. O teu olhar, tão intenso . . . é como se a penetrasses naquele momento em que lhe diriges a tua atenção. Não sabe explicar o que fazes e como o fazes, mas sabe que há algo e, ti, algo que a deixa louca. Louca de desejo, de paixão, louca por te ter. Ali mesmo, naquele instante, louca por te ter só para ela. Que tens tu ? Não sabe, não precisa de saber, cativas o seu desejo. Sabe que te quer, porquê ? Não sabe explica-lhe tu .
- Kasti Valo

O tudo passa a nada

De repente o tudo transforma-se em nada. O tudo deixa de fazer parte, simplesmente desaparece. O nada vai ganhando lugar, não para de crescer. No fundo apercebemo-nos que só damos valor a tudo quando se transforma em nada. Sente um vazio enorme dentro de si, o nada está a multiplicar-se a cada segundo. Nesse abismo nada dá lugar à aprendizagem, aprendeu que tem que dar valor a tudo visto que quando não há nada para dar valor perdê-mo-nos na tristeza, no nada pensamos e repensamos, sobrevivemos e tentamos ganhar forças para nos apercebermos de tudo. O nada ensina-a, acorda-a. Precisa do nada por uns tempos, abstrair-se de tudo, precisa de estar assim, vazia. Esse vazio faz a ligação para o próximo passo, a próxima etapa, próxima batalha. E tudo passa a nada.

-Kasti Valo