- Kasti Valo
Amarrado ao papel um coração insatisfeito grita pela indulgência da silenciosa noite.
Perdida na cidade
Já nem sabe quem é
Há dias em que não sabe quem é, dias em que não reconhece quem a olha serenamente no espelho. Mas nesses dias também sabe que quem não sabe dizer quem é pode ser quem eu quiser. E ela pode permanecer esquecida numa almofada de sofá sem que a vida a incomode. A capacidade de sonhar é infinita, bem o sabe. Mas que fazer quando a mente está cansada de montar e desmontar caminhos para nós e o coração se encolhe mais um pouco ? De cada vez que a alma é fraca demais para realizar os sonhos ? Mesmo quando não sabe quem é sente que algo se quebra, qualquer coisa lá dentro quando a vida a faz tropeçar e cair, mesmo quando não é ela que sonha sente a alma pintar-se de negro à certeza da impossibilidade dos caminhos. E quando há dor na incapacidade de se reconhecer a vida sussurra-lhe ao ouvido que se perdeu. Ela responde calmamente que não pode estar perdida porque nunca soube qual era o caminho, qual era o destino. Sabe porque é que não se reconhece. De cada vez que aquilo que constrói cai ao chão e se estilhaça em mil pedaços perde um pouco de si, desaparece um pedacinho de quem é. Quando tenta reconstruir tudo outra vez, fica com os dedos dormentes e gelados por estar a colar todas as peças e no fim elas voltam a desmoronar-se aos seus pés. Quando sente que já não há nada a fazer. Sabe que não se reconhece porque há um bocadinho de si que fica sempre esquecido no meio das peças quebradas da vida.- Kasti Valo
Uma mão cheia de vento
O silêncio, o leve balançar do silêncio. O eco da ausência que desfaz o sonho, queimando-o com a realidade, esta chama da vida arde nas suas mãos. A inconstância do vento que acaricia a alma. Adora o vento, senti-lo liberta-a. Parece que o tempo pára, até o sol se demora mais no dia. É daqueles momentos em que as palavras são realmente desnecessárias, dos poucos momentos em que a fúria transmite calma, quando o vento de tão violento nos faz esquecer as perturbações do quotidiano. Não se importo de levar com areia quando está deitada na praia sabe que se se levantar vai adorar sentir o vento na pele e a areia não a vai incomodar nada, também não se importa de ter o vento nas suas costas a revolver-lhe os cabelos, basta-lhe dar meia volta e oferecer-lhe um sorriso. Gosta, gosta tanto de estar sentada no baloiço com os tornozelos cruzados e os pés no ar, sentir as cordas a balançar com o vento, olhar a paisagem e apreciar as coisas simples da vida. Porque ainda tem esperanças que a felicidade seja simples.
- Kasti Valo
As palavras
Há palavras que não sinto, não incomodam, palavras essas que passam por mim sem sequer me tocar. Há frases que não perturbam, não fazem barulho nem ficam na mente. Mas há também palavras que magoam, que fazem estragos que nem sempre gostamos de admitir. Também existem aquelas palavras que nos instigam a alma sem respeito e nos pisam o coração sem piedade ou misericórdia. Há ainda as palavras doces, que tem um sabor açucarado, que aquecem as mãos, que fazem os olhos brilhar e os lábios sorrir. Palavras que se balançam entre um sorriso e outro, que se penduram na alma e cantam. As palavras, elas são uma arma, não sou a primeira a dizê lo e com certeza não serei a ultima. Palavras, elas podem ferir ou curar. O poder está nas palavras, sempre esteve.
- Kasti Valo
Sonhos inacabados
Inacabados sim, quando a sua mão se desvia subtilmente da dela e os seus olhos já não sabem quem é ela. Incompleto porque lhe falta o calor de sua pele, é assim desde que o olhar dele fugiu do seu, um sonho desfeito que alguém esqueceu enquanto acordava. Culpa-te, foste tu que a tornaste nisto, este amontoado de pedaços de alma que caem a teus pés. Esta pilha de vidros estilhaçados na estrada que fizeram de mãos unidas. Depois de ter sido o fogo do tempo nas horas em que o amou obrigou-a a ser o gelo solitário que agora lhe chora. Não sei se te ocupa a mente este seu lamento silencioso, mas sei que te perturba a solidão em que te envolveste, nunca gostaste de estar sozinho. E agora que soubeste como vencer o medo e a abandonaste não sabe como pensar, deixou de saber viver. Foste tu, ensinaste-a a ser arco-íris nas nuvens e agora, sem o teu sorriso, vê-se numa fotografia corroída pela memória a quem roubaste a cor. É assim, o guarda-chuva partido que se esforça por te proteger das inúmeras gotas no meio de uma tempestade. Inacabado, porque lhe faltas tu, porque a culpa que despeja em ti não lhe limpa a dor.Há dias assim
Olha através da janela embaciada e suspira, a mente tão cheia e tão vazia incomoda-nos como roupa molhada... O coração bate apertado, resumindo-se a um órgão grande demais para uma alma tão diminuta, os olhos cansados procuram o auxílio das lágrimas que reprime com toda a sua racionalidade. Há dias assim em que tudo foge ao nosso controlo e a vida corre sem nos dar satisfações, dias em que por mais que o sol brilhe não conseguimos levantar a cabeça com vontade de sorrir, dias em que sentimos que a nossa vida está em ruínas. Mas contudo, tenta acreditar que dias melhores virão, espera que cheguem mas no entretanto saltitamos de dia em dia à espera...à espera...à espera que cheguem esses dias em que conseguimos sorrir com um motivo, um sorriso verdadeiro, repetimos que eles virão vezes e vezes sem conta até nos mentalizarmos disso e acabamos mesmo por acreditar que é verdade...até que voltam dias assim, cabisbaixos, pesados que nos deixam melancólicos, exaustos, e esses dias ficam...permanecem como nódoas secas nas toalhas de mesa, sem que haja um detergente milagroso que as lave. E vão manchando a nossa felicidade perfeita...
- Kasti Valo
Caminha sozinha
- Kasti Valo
Como ama sonhar contigo
Acordou numa praia deserta, um sitio lindo, calmo, diria até que perfeito. De certa forma sentiu que já lá tinha estado, talvez em sonhos. Sentiu liberdade, alegria. Correu até à água e era como se o mundo fosse seu, ninguém pudesse interferir naquilo que estava a sentir, mas depois voltou a recordar-se, como se a brisa do vento tivesse trazido o teu olhar até ela. Sentou-se nas dunas, olhou o mar, voltou a sentir-se triste e insegura daquilo que é ou significa. Quando olha para o lado, estavas lá, no fundo sempre lá estiveste. Deste-lhe a mão, sentiu-se realizada foram juntos até à beira do mar sentiu a água nos seus pés, deste-lhe um abraço forte, retribuiu. Sentiu-se eufórica tinha sido sem dúvida o melhor abraço que alguma vez recebera. Olhaste-a nos olhos e sorriste, deste-lhe um beijinho na bochecha. Depois começaram a brincar com a água e ficaram encharcados e frios, foram de novo para areia e, embrulhados na mesma toalha partilharam segredos, riam-se juntos, pegaste na sua mão sussurraste no seu ouvido que a amavas, olhaste-a nos olhos e sentiu teus lábios tocarem nos seus, o tempo parou, eram só vocês dois. Mas depois acordou, foi apenas mais um sonho do qual não queria ter acordado. Pode não ter sido realidade, não passou de um sonho e nunca passará disso, mas sabe que hoje quando fechar os olhos, estarás lá de novo. - Kasti Valo
O grito do silencio
O silencio é a melhor forma de transmitir o que queremos esconder, tudo aquilo que não sabemos como dizer ou escrever, arranca de nós as palavras que insistimos em esquecer. Na serenidade do momento esperamos que ninguém perceba o que disfarçamos com sorrisos. Com as conversas, fica tanto por dizer, um olhar chega para desmascarar a nossa ausência de palavras, não conseguimos verbalizar a batida da alma, o molho de pensamentos que nos ocorrem é como o poema de quem aprendeu a guardar as palavras mas não sabe como usá-las. Vai ocupando o dia no silêncio, numa angustia omnipresente que a prende vai esperando que a coragem a solte, que as palavras lhe devolvam a liberdade. Mas enquanto o medo lhe oprimir as palavras, apenas o olhar poderá falar.
- Kasti Valo
Quebrou a promessa.
Procura no escuro, não quer acender a luz que tanto lhe ofusca os olhos, não suporta mais a dor de cabeça, baixa os olhos e encosta a testa ao pulso, permanece assim, caída sobre os seus braços como se não tivesse mais nenhum lugar para repousar. O tic-tac violento do relógio parou e as horas deixaram de passar, já não sabe onde está nem porque parou, não consegue perceber porquê mas o seu coração saltou, está procurando as tuas mãos, mordiscando-te os dedos e dizendo que precisa de continuar a bater. Nunca o tinha ouvido antes, não entende porque o ouve agora, tão alto como as gotas salgadas a caírem-lhe nos joelhos, tão desesperados os seus lábios por um sorriso. Todo o seu corpo a rejeita e o seu coração anseia por ti. Tenta esconder a lágrima que tenta escorrer-lhe pelo rosto, prometeu a si mesma que nunca mais choraria por alguém que nunca lhe retribuiu o que lhe dava continuamente sem a questionar, mas parece tão difícil evitar. Gritou: "NÃO VOU CHORAR!" mas aí sentiu uma gota de água salgada a cair-lhe na mão e depois dessa, mais chegaram para que a sua promessa fosse quebrada.
- Kasti Valo
Saudades
Fala consigo própria tentando achar conforto. Deitada na cama, o quarto escuro, mais uma noite em branco, presa à ânsia de ser feliz, de lutar contra as lágrimas, roubaram-lhe o sorriso. Chegou às noites sem dormir, à melancolia, à amargura que lhe trás o nascer do sol ao saber que passará outro dia presa aos problemas, farta do mundo, com saudades dos tempos de criança em que se pintava junto de amigos e família mas o seu pincel caiu restam apenas pequenos esboços desenhados a carvão que não tem mais motivação nem forças para colorir.
- Kasti Valo
Segredo

Contaram-lhe
um segredo profundo, um pedacito pequeno de uma pessoa. Ela sabia que esse
pequeno segredo lhe ia consumir a alma, negou partilhá-lo com quem fosse, nunca
se desfez dele. Ela sabia como o guardar. O segredo crescia e um dia iria ser
maior que ela mas ela teria de saber como o controlar. Às vezes sozinha a lutar
contra a insónia ou a vontade de dormir, concentrava o seu pensamento
nesse segredo e sentia a cabeça pesada, sentia falta de alguém a quem
o pudesse contar, mas nunca o contou, sabia que não o devia fazer. Há
segredos que são assim, que nos saltam para as mãos sem
pedir licença e depois nos queimam por dentro por não os podermos
deixar ir. Mas depois de doerem, sossegam e empurramo-los para o mais obscuro
canto do nosso ser, assim acaba o impulso de querer contar
a alguém. E há tantos segredos que se transformam em sorrisos, que se
tornam parte de nós, que se desfazem em bocadinhos e nunca nos deixam realmente. Mas rege a verdade que um amigo respeita segredo.
- Kasti Valo
Poderá ter paz ?
Encosta a cabeça ao braço, a alma pesa-lhe menos nesta posição. O frio misturado com uma angustia inquieta que vem sabe-se lá de onde. Os lábios estão secos, pregados um no outro, a dor na garganta que desagrada como engolir xarope amargo. Sente o olhar cansado de quem espera sem saber, de quem dorme sem acordar, de quem descansa num vão de escada esquecido. Há uma lágrima encostada ao coração e ela sabe que muitas outras lágrimas virão em catapulta, embatendo bruscamente contra si. Os olhos ardem, não brilham, não reagem...Estão nublados, cinzentos, cobertos de tudo o que pode passar por dor, causada por um misero gesto estúpido vindo duma pessoa que julgava ser diferente todos parecem diferentes no fim mostram-se todos iguais. A diferença disfarçou a igualdade, um sorriso ocultou a angustia e trouxe as lágrimas. Um beijo cobriu o que deveria ter visto, uma pessoa fria, que a aquecia com seu carinho. Um toque de compaixão que no fundo nunca passou duma mentira. Precisa de descanso, espaço, tempo...tem que estar só, apenas consigo...
- Kasti Valo
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