Linhas férreas continuas. O comboio avança, na direcção da brisa que vem de leste. Os seus passageiros têm consciência da infinitude do caminho, mas permanecem na jornada, por entre estes passageiros encontra-se um rapaz de cabelos escuros. Enquanto se segura nas barras verticais e atravessa os lábios gretados com a língua esguia, pratica um monólogo mental, enquanto encara no vidro o seu reflexo a sua própria imagem, não vê ou reconhece ninguém, prefere manter o anonimato assim como muitos dos outros passageiros, usando um véu escuro que cobre o seu rosto pávido e sereno. Os passageiros continuam a sua travessia no comboio, as linhas paralelas oferecem um castigo às almas oprimidas daqueles que viajam nele. Imagens vertiginosas deambulam pela sua mente, a débil rapariga correndo, entre soluços abafados de seu choro e os seu passos velozes, tentando frustradamente afastar-se ou afugentar o predador que corria ferozmente na sua direcção. Nem o choro daquela mísera criatura fez com que ele, o caçador, mudasse os seus planos em relação à efémera fêmea, pelo contrario, a respiração entrecortada e o pavor da pobre rapariga não passavam de um mero entretém. Inutilmente tentava expulsar aquelas imagens de sua mente profana, mas elas permaneciam, como forma de punição. Em memórias ela corria em busca de refúgio, mas agora, era ele que procurava um esconderijo, um véu ou máscara que cobrisse por inteiro a sua vergonha. As imagens diversas provenientes de mentes perturbadas enchiam o vagão como que uma libertação. Quase que era possível sentir fisicamente a carga obscura presente naquele pequeno espaço, sem o soar de qualquer palavra. Os passageiros procuravam, assim como ele, uma forma de afastar qualquer infeliz lembrança. Alguns, na esperança que o embalo sonoro levasse toda a fatiga embora dançavam desenxabidos ao som de notas musicais imaginárias, notoriamente em vão. Outros limitavam-se a cobrir os rostos, actos inúteis aos olhos alheios, mas vagueando no vagão encontrava-se um fio de esperança que separava a lucidez da loucura, uma barreira que impedia os passageiros de se atirarem ao abismo da incerteza, um leve consolo diante do fado aguardado nessa expectativa que o mesmo fosse amenizado, apesar da noção que não resultaria. O comboio mantinha o seu ritmo, lento, na travessia em busca de um destino sem início nem fim, semelhante à culpa que o rapaz de cabelos escuros traria para sempre com ele.
- Kasti Valo
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