O silêncio, o leve balançar do silêncio. O eco da ausência que desfaz o sonho, queimando-o com a realidade, esta chama da vida arde nas suas mãos. A inconstância do vento que acaricia a alma. Adora o vento, senti-lo liberta-a. Parece que o tempo pára, até o sol se demora mais no dia. É daqueles momentos em que as palavras são realmente desnecessárias, dos poucos momentos em que a fúria transmite calma, quando o vento de tão violento nos faz esquecer as perturbações do quotidiano. Não se importo de levar com areia quando está deitada na praia sabe que se se levantar vai adorar sentir o vento na pele e a areia não a vai incomodar nada, também não se importa de ter o vento nas suas costas a revolver-lhe os cabelos, basta-lhe dar meia volta e oferecer-lhe um sorriso. Gosta, gosta tanto de estar sentada no baloiço com os tornozelos cruzados e os pés no ar, sentir as cordas a balançar com o vento, olhar a paisagem e apreciar as coisas simples da vida. Porque ainda tem esperanças que a felicidade seja simples.
- Kasti Valo
Há palavras que não sinto, não incomodam, palavras essas que passam por mim sem sequer me tocar. Há frases que não perturbam, não fazem barulho nem ficam na mente. Mas há também palavras que magoam, que fazem estragos que nem sempre gostamos de admitir. Também existem aquelas palavras que nos instigam a alma sem respeito e nos pisam o coração sem piedade ou misericórdia. Há ainda as palavras doces, que tem um sabor açucarado, que aquecem as mãos, que fazem os olhos brilhar e os lábios sorrir. Palavras que se balançam entre um sorriso e outro, que se penduram na alma e cantam. As palavras, elas são uma arma, não sou a primeira a dizê lo e com certeza não serei a ultima. Palavras, elas podem ferir ou curar. O poder está nas palavras, sempre esteve.
- Kasti Valo
Inacabados sim, quando a sua mão se desvia subtilmente da dela e os seus olhos já não sabem quem é ela. Incompleto porque lhe falta o calor de sua pele, é assim desde que o olhar dele fugiu do seu, um sonho desfeito que alguém esqueceu enquanto acordava. Culpa-te, foste tu que a tornaste nisto, este amontoado de pedaços de alma que caem a teus pés. Esta pilha de vidros estilhaçados na estrada que fizeram de mãos unidas. Depois de ter sido o fogo do tempo nas horas em que o amou obrigou-a a ser o gelo solitário que agora lhe chora. Não sei se te ocupa a mente este seu lamento silencioso, mas sei que te perturba a solidão em que te envolveste, nunca gostaste de estar sozinho. E agora que soubeste como vencer o medo e a abandonaste não sabe como pensar, deixou de saber viver. Foste tu, ensinaste-a a ser arco-íris nas nuvens e agora, sem o teu sorriso, vê-se numa fotografia corroída pela memória a quem roubaste a cor. É assim, o guarda-chuva partido que se esforça por te proteger das inúmeras gotas no meio de uma tempestade. Inacabado, porque lhe faltas tu, porque a culpa que despeja em ti não lhe limpa a dor.
- Kasti Valo
Olha através da janela embaciada e suspira, a mente tão cheia e tão vazia incomoda-nos como roupa molhada... O coração bate apertado, resumindo-se a um órgão grande demais para uma alma tão diminuta, os olhos cansados procuram o auxílio das lágrimas que reprime com toda a sua racionalidade. Há dias assim em que tudo foge ao nosso controlo e a vida corre sem nos dar satisfações, dias em que por mais que o sol brilhe não conseguimos levantar a cabeça com vontade de sorrir, dias em que sentimos que a nossa vida está em ruínas. Mas contudo, tenta acreditar que dias melhores virão, espera que cheguem mas no entretanto saltitamos de dia em dia à espera...à espera...à espera que cheguem esses dias em que conseguimos sorrir com um motivo, um sorriso verdadeiro, repetimos que eles virão vezes e vezes sem conta até nos mentalizarmos disso e acabamos mesmo por acreditar que é verdade...até que voltam dias assim, cabisbaixos, pesados que nos deixam melancólicos, exaustos, e esses dias ficam...permanecem como nódoas secas nas toalhas de mesa, sem que haja um detergente milagroso que as lave. E vão manchando a nossa felicidade perfeita...
- Kasti Valo
O passo apressado denuncia a insegurança, leva o coração nas mãos, mal consegue respirar. Quantas vezes teve de desistir do coração, já ninguém sabe, mas ela recusa-se à solidão e sente vontade de parar, descansar um pouco, encostar-se a algo seguro e fechar os olhos. O cansaço embriaga-lhe os sentidos e por alguns segundos impede-a de manter o ritmo da passada, o vento frio corta-lhe as lágrimas e ela acha que não tem mais motivos para sorrir. Ela é persistente, não desiste, mas sente-se perto do limite, as lágrimas ainda escorrem e ela parou a caminhada para as limpar. Perdeu o passo, perdeu o ritmo...encontrou coragem, ergueu a cabeça olhou o horizonte e deixou de se sentir insegura. Agora, nesta fracção de segundos, deixou de odiar o mundo, tudo é difícil sim, mas ela é forte, ela tenta ultrapassá-lo, foi-se abaixo, chorou, parou, limpou as lágrimas, olhou em volta, persistiu e regressou à jornada. Sorri, e prossegue o seu caminho para a felicidade.
- Kasti Valo