A morte de um frágil amor

Algo a assombra de quando em vez, o amor que tinha, para onde foi? Quem o guardou meticulosamente ou o deixou fugir por entre os dedos? Desapareceu. Mas se desapareceu, para onde foi? 
Quando morre o amor e deixa de se falar dele, passa a ser algo que não deve ser pronunciado , alho do qual se foge para não sentir a dor imunda que nos consome as artérias. Quando morre, esquecemos lentamente o seu rosto pois ninguém o olha, fica perdido por entre os tantos outros sentimentos que com ele faleceram. Há quem mate o amor e o veja partir, há quem o vá matando com mentiras, com descuido... há quem o mate com silêncio ou quiçá palavras a mais. Talvez depois de morto fique cá dentro como um vizinho silencioso do qual não nos lembramos até nos cruzarmos com ele outra vez,  possivelmente à espera que o ressuscitem ou o matem de vez... Permanecem também, embriagadas de saudade,  as memórias que tendem a deambular entre sonhos passados e momentos nunca esquecidos. 
Abraçando ao peito as memórias sorri, porque dentro de si sente que esse amor outrora morto, renasceu e traz com ele novas recordações.

Vida, débil vida.

Caminha pela amarga calçada um homem sublime, de olhos castanhos avelã que padeciam ao reflectir seu passado árido, negros cabelos longos de cachos encaracolados e lábios atormentados pela gélida aragem, Leonardo de Sousa Caetano era o seu nome. Nascido numa casa junto ao Douro no rigoroso Outono de 1989, fruto de um parto prematuro ao qual a sua mãe, Helena, não sobreviveu. 
Leonardo era indomável, talvez por ter tido uma infância árdua, sem protecção materna. O seu pai, Santiago Caetano, um apaixonado pela literatura, licenciado em direito, vivia angustiado, sempre preso à morte da sua esposa e perdia a sobriedade entre tragos de vinho e licor enquanto o seu filho passava as noites com uma ama.
Um pálido cigarro acompanha a sua passada demorada enquanto aconchega à sua pele macia a mão de sua amada Carolina, de pernas longas, esbeltas e frágeis que acarretam o peso de um efémero corpo que Leonardo tanto estimava. Conheceram-se na universidade, no curso de direito do qual acabou por desistir, repugnava-o ser de qualquer forma parecido ao seu pai.
Encontra-se agora sentado, a cadeira dobra-lhe a pele seca, os lábios estão secos, pregados um no outro, sente dor na garganta que desagrada como engolir xarope amargo, à espera que termine o horário de trabalho, passa os seis dias no mini mercado do pacato bairro junto ao seu, contudo odeia ter de falar com as pessoas, sorrir para quem não lhe sorri de volta, sempre quis ser maquinista de um comboio, perder-se na continuidade das linhas férreas  no entanto as viagens que faz são como passageiro. Após o percurso de regresso procura as chaves enquanto é  recebido pela sua mais fiel companhia, um felino pequeno de olhos esverdeados e pelo preto macio que todos os dias o esperava pacientemente deitado na carpete junto à porta da casa amarela em que viviam.
Chegado a casa pousa o casaco na cadeira mais próxima e acaricia graciosamente o seu ágil amigo de quatro patas, serve-se de uma fatia de bolo de chocolate que comprou numa pequena pastelaria a caminho de casa e senta-se à janela enquanto na sua aparelhagem giram canções de Carlos do Carmo, nunca faltou o fado no sossego da sua modesta casa.
O tic-tac violento do seu relógio de parede marca já as sete, mas hoje não há qualquer pressa, aquecerá para o jantar o arroz de pato que cozinhara no dia anterior. Depois da refeição caminha até ao pequeno bar em que costumava servir bebidas, não fosse hoje sexta-feira estaria já deitado com o gato aos seus pés, embalando o seu pensamento com um livro que requisitara na biblioteca do concelho.
Cansado depois de um dia de trabalho, Leonardo aconchega a cabeça na almofada, prepara-se para sonhar, não com a débil vida que tem, mas com a que gostaria de ter.

Cobre-se de silencio.

Cobre-se de silencio, como um anjo num pedestal que alberga as suas asas cansadas. Vento. Apenas ouve o vento, enquanto embala a melancolia nos seus braços frios. Cobre-se então de silêncio porque já não chegam os dias e as noites, porque já não bastam as palavras ou meros pensamentos, resta-lhe apenas a furiosa ânsia. Procura em vão um lugar no qual os seus pés nunca tenham pisado, de uns lábios cujo sabor a sua língua nunca saboreou, cobre-se finalmente de silêncio porque ainda sente o cheiro do passado na noite, ouve os passos de um amor que nunca chegou a nascer e já adivinha a tua ausência. No seu sorriso morto trás a saudade, nos seus olhos, a esperança. Busca algo, algo que nunca encontrou, um lugar novo, uma vida diferente, e, enquanto espera que a maré lhe traga a mudança. Cobre-se de silencio, enquanto a amargura lhe corrói o sangue quente, numa angustia que envolve a sua existência numa miserável mancha de solidão. 

- Kasti Valo

Entre lágrimas.

Porquê travar as lágrimas antes delas caírem? Porque não deixá-las deslizar sobre a tua pele e tombarem sobre as minhas mãos. Encostas a tua cabeça no meu ombro e a água salgada escorre pelo teu pequeno nariz até pingar nas tuas calças, levantas-te rapidamente e pedes desculpa. "Não peças desculpa, tomara eu ficar com as calças ensopadas de cada vez que precisas chorar." o que causa em ti um sorriso leve. “Já tens os olhos vermelhos de tanto sal.” Tremes, parte-me o coração ver-te a soluçar, sinto a dor em cada uma das tuas lágrimas e a revolta no teu olhar. Os teus lábios inchados e quentes que mordes nervosamente e os teus dedos que seguram instintivamente um lenço de papel húmido e salgado. Está a custar-me tanto ver-te assim. Suspiras cansada e aconchegando-te um pouco mais nos meus braços, passo a mão pelos teus suaves cabelos. Seguras-te ao seu pescoço e, sem caíres do sofá consegues aninhar-te no seu colo. Acaricio o teu cabelo e entre os teus soluços de choro tento acalmar-te até que adormeces, exausta de tanto sofrimento. 



- Kasti Valo

Comboio


Linhas férreas continuas. O comboio avança, na direcção da brisa que vem de leste. Os seus passageiros têm consciência da infinitude do caminho, mas permanecem na jornada, por entre estes passageiros encontra-se um rapaz de cabelos escuros. Enquanto se segura nas barras verticais e atravessa os lábios gretados com a língua esguia, pratica um monólogo mental, enquanto encara no vidro o seu reflexo a sua própria imagem, não vê ou reconhece ninguém, prefere manter o anonimato assim como muitos dos outros passageiros, usando um véu escuro que cobre o seu rosto pávido e sereno. Os passageiros continuam a sua travessia no comboio, as linhas paralelas oferecem um castigo às almas oprimidas daqueles que viajam nele. Imagens vertiginosas deambulam pela sua mente, a débil rapariga correndo, entre soluços abafados de seu choro e os seu passos velozes, tentando frustradamente afastar-se ou afugentar o predador que corria ferozmente na sua direcção. Nem o choro daquela mísera criatura fez com que ele, o caçador, mudasse os seus planos em relação à efémera fêmea, pelo contrario, a respiração entrecortada e o pavor da pobre rapariga não passavam de um mero entretém. Inutilmente tentava expulsar aquelas imagens de sua mente profana, mas elas permaneciam, como forma de punição. Em memórias ela corria em busca de refúgio, mas agora, era ele que procurava um esconderijo, um véu ou máscara que cobrisse por inteiro a sua vergonha. As imagens diversas provenientes de mentes perturbadas enchiam o vagão como que uma libertação. Quase que era possível sentir fisicamente a carga obscura presente naquele pequeno espaço, sem o soar de qualquer palavra. Os passageiros procuravam, assim como ele, uma forma de afastar qualquer infeliz lembrança. Alguns, na esperança que o embalo sonoro levasse toda a fatiga embora dançavam desenxabidos ao som de notas musicais imaginárias, notoriamente em vão. Outros limitavam-se a cobrir os rostos, actos inúteis aos olhos alheios, mas vagueando no vagão encontrava-se um fio de esperança que separava a lucidez da loucura, uma barreira que impedia os passageiros de se atirarem ao abismo da incerteza, um leve consolo diante do fado aguardado nessa expectativa que o mesmo fosse amenizado, apesar da noção que não resultaria. O comboio mantinha o seu ritmo, lento, na travessia em busca de um destino sem início nem fim, semelhante à culpa que o rapaz de cabelos escuros traria para sempre com ele.
- Kasti Valo





Deixa tudo


Caminha pela amarga calçada uma soberba mulher, de olhos castanhos avelã que padeciam ao refletir o seu passado árido, cabelos longos de cachos encaracolados e lábios atormentados pela gélida aragem. As suas pernas longas, esbeltas e frágeis acarretam o peso do seu efémero corpo enquanto a débil alma consome a carne fervorosa. Pretende partir, deixar o que lhe resta. Deixa a Lua e deixa o Sol, deixa o vento, deixa a chuva. Deixa para quem sorri, a luz. Enquanto aconchega à sua pele macia a escuridão presunçosa que minuciosamente acompanha a sua passada demorada, deixa a infância para quem não teve alguma, deixa os sorrisos para quem chora, mas leva consigo a amargura de residir encarcerada num canto recôndito, leva as memorias de sua censurada travessia pelo caminho acidentado a que se cingiu a sua vitalidade insignificante. Deixa para aqueles que respiram, o ar. E, num último austero sufoco, num último arrepio insípido, deixa a vida para quem a estima.
- Kasti Valo

Pura és maresia



Como adora contemplar os movimentos da água, movimentos esses que a trazem, pacifica e calmamente, enquanto o sol se põe e a maré enche. Senta-se horas na areia, de olhos fechados, apenas ela e a sua tão amada maré. O vento que embate no seu corpo já gelado não a empede de observar o inócuo perigo que transparece nas ondas enfurecidas que afogam as suas mágoas em águas profundas, essas mesmas ondas, lavam a sua alma, na água pura que corre agora por entre os seus pés descalços na areia molhada. Pura és maresia, tu que a invocas, que a chamas. Sim tu, maresia, tão casta, que trazes contigo a paz, que a incitas à loucura. Como te ama, como te espera, tu que a hipnotizas, tu que a pacificas, tu, o seu refugio.

- Kasti Valo

Maresia, tu que o chamas

A brisa nos seus cabelos, longos, loiros. O toque gentil da areia, húmida na sua frágil pele. O sabor da água, salgada, nos seus lábios, frios e gretados. O seu peito, contra a sua prancha, escorregadia. A adrenalina que percorre freneticamente o seu cérebro e lhe proporciona essa pulsação acelerada que tanto procura nas supérfluas ondas. A sensação de paz emerge, como adora cair na água gelada, enquanto a sua prancha se afasta, lentamente levada pela corrente, e, por mais desconfortável que seja, a água que lhe inunda os ouvidos proporciona a vontade de voltar a subir a prancha, navegar sobre as águas, cortar as ondas, um dia no mar, um surfista, encantado pela maresia, seu cheiro e a sua cor translucida e pela areia, sua textura árida, granulada, relaxante. A sensação de estar ali, molhado fá-lo sentir-se realizado, mas faz-se tarde, tem agora que abandonar as águas e voltar para casa, de certo que voltará ao mar, as ondas chamam-no, cativam-no.
- Kasti Valo