Fugiram-lhe as palavras

Às vezes as palavras ficam perdidas no fundo de um olhar, penduradas num sorriso ou outro. E quando damos por elas a repousar numa escada luminosa da nossa alma. Deixam-se ficar a ver o por-do-sol e a pedir-lhe que demore mais desta vez. Há manhas em que saltitam no sorriso do sol, irrequietas e felizes e nos salpicam os dias de alegria mas também há dias em que a noite é o único consolo e as palavras se escondem atrás de portas trancadas pelo tempo, se reduzem a brechas de luz esquecidas no amanhecer, a reflexos do céu nas águas mais calmas, é nessas horas em que as palavras se entristecem e pintam as frases com tinta preta e escondem segredos, falam baixinho sussurram até, têm medo de fazer sangrar as feridas e rasgar de novo a pele. São fortes, tão frágeis. Esquecemo-las tantas vezes nos parapeitos das janelas, nas ombreiras das portas de madeira roída e antiga e elas permanecem como se tivessem nascido ali, num canto que o sol esqueceu, num abrigo da chuva. Usamo-las com tanto desprezo que nem o gelo é capaz de as abraçar e as gotas de chuva fria não chegam para as consolar. É por isso que às vezes, elas fogem de nós.
-Kasti Valo

Sem comentários:

Enviar um comentário