Deixa tudo


Caminha pela amarga calçada uma soberba mulher, de olhos castanhos avelã que padeciam ao refletir o seu passado árido, cabelos longos de cachos encaracolados e lábios atormentados pela gélida aragem. As suas pernas longas, esbeltas e frágeis acarretam o peso do seu efémero corpo enquanto a débil alma consome a carne fervorosa. Pretende partir, deixar o que lhe resta. Deixa a Lua e deixa o Sol, deixa o vento, deixa a chuva. Deixa para quem sorri, a luz. Enquanto aconchega à sua pele macia a escuridão presunçosa que minuciosamente acompanha a sua passada demorada, deixa a infância para quem não teve alguma, deixa os sorrisos para quem chora, mas leva consigo a amargura de residir encarcerada num canto recôndito, leva as memorias de sua censurada travessia pelo caminho acidentado a que se cingiu a sua vitalidade insignificante. Deixa para aqueles que respiram, o ar. E, num último austero sufoco, num último arrepio insípido, deixa a vida para quem a estima.
- Kasti Valo

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