Já nem sabe quem é

Há dias em que não sabe quem é, dias em que não reconhece quem a olha serenamente no espelho. Mas nesses dias também sabe que quem não sabe dizer quem é pode ser quem eu quiser. E ela pode permanecer esquecida numa almofada de sofá sem que a vida a incomode. A capacidade de sonhar é infinita, bem o sabe. Mas que fazer quando a mente está cansada de montar e desmontar caminhos para nós e o coração se encolhe mais um pouco ? De cada vez que a alma é fraca demais para realizar os sonhos ? Mesmo quando não sabe quem é sente que algo se quebra, qualquer coisa lá dentro quando a vida a faz tropeçar e cair, mesmo quando não é ela que sonha sente a alma pintar-se de negro à certeza da impossibilidade dos caminhos. E quando há dor na incapacidade de se reconhecer a vida sussurra-lhe ao ouvido que se perdeu. Ela responde calmamente que não pode estar perdida porque nunca soube qual era o caminho, qual era o destino. Sabe porque é que não se reconhece. De cada vez que aquilo que constrói cai ao chão e se estilhaça em mil pedaços perde um pouco de si, desaparece um pedacinho de quem é. Quando tenta reconstruir tudo outra vez, fica com os dedos dormentes e gelados por estar a colar todas as peças e no fim elas voltam a desmoronar-se aos seus pés. Quando sente que já não há nada a fazer. Sabe que não se reconhece porque há um bocadinho de si que fica sempre esquecido no meio das peças quebradas da vida.

- Kasti Valo

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