Perdida na cidade

Os cabelos ondulam ao sabor do vento, compridos não querem parar. Avista o pôr-do-sol diante dos seus olhos. Casas e prédios a perder de vista. Tudo isto é tão diferente, tão mais frio e triste, tão mais cheio de coisas e vazio de sentimentos e beleza. Como se o estuque e o cimento pudessem substituir as pétalas a voar da flor da amendoeira, como se o barulho rude dos aviões pudesse alguma vez substituir o doce chilrear dos pássaros, como se as sirenes aflitivas e as buzinas simultâneas se pudessem comparar com o remexer vivo dos melros nas folhas secas do chão, como se o cheiro das máquinas na cidade conseguisse um dia suplantar a mistura de aromas do campo. E a noite chega, o sol esconde-se triste e esfaqueado por entre os arranha-céus, a lua cheia aparece quase transparente no lado oposto, desvanecida dentro duma plataforma de fumo e poluição. Uma noite onde as estrelas não estão plantadas no céu, estão nas ruas de alcatrão, amarelas, verdes, vermelhas...de tantas cores que perdem a beleza. Olha para o céu, estava à espera das estrelas...mas com tanta luz na terra elas fogem, não chegam aqui, não há estrelas, costumam ser elas que a guiam, sente-se perdida.


- Kasti Valo

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