
Alma extinta, esquecida, abandonada, ferida, desamparada, afogada, defunta, abatida, incendiada assassinada, desvanecida, aniquilada, acabada, desaparecida, enfraquecida, invisível aos olhos de qualquer um, a sua alma está morta. A sua instabilidade emocional reflecte-se nas marcas que trás nos pulsos, a sua insegurança leva-a a consumir mais e mais de si. Gritos, ouviram-se gritos naquela tarde, tarde essa em que encerrou a angústia frenética que absorvia cada centímetro do seu corpo gélido, o fim. Fim esse que vagueia ainda hoje pela boca dos moradores daquele bairro pacato nos arredores de nenhures. Os estilhaços de espelho no chão do seu quarto e o sangue na carpete residem na memória dos conhecidos. O constante peso de consciência presente nos familiares e em todos aqueles que outrora viam uma rapariga bem sucedida, que sorria a toda hora e com um brilho magnificente no olhar, essa feliz rapariga que então se tornou inerte, os seus olhos converteram-se baços e a sua expressão tornara-se estática. Recuando um tempo inserto na história, preparava-se para dormir quando escutou o aproximar de passos, passos hostis em direcção ao seu quarto escuro, meteu-se por debaixo dos lençóis e fingiu estar navegando em sonhos, já sabia ela que chegara então a hora do rotinário suplício mas isso não a salvara daquilo a que pensava ela estar destinada, acontecera mais uma vez depois de tantas outras. Ela é muito vago, chamá-la-emos de Hope. A primeira tortura sucedera quando Hope tinha apenas oito anos, conheceu o inferno em meros minutos, a dor incessável apoderou-se do seu corpo pequeno e frágil, num gesto profano, ele apoderou-se da delicada menina. Hope, jorrando sangue, dirigiu-se à casa de banho enquanto o seu meigo rosto se perdia em lágrimas, não queria contar a ninguém, ela receava o que ele lhe poderia impor ou fazer. A esse ser ignóbil que a consumiu chamemos então de Outsider. Passaram-se sete anos desde a primeira vez que esse ser mundano se apoderou da efémera menina, ela tinha agora quinze anos mas Outsider prosseguiu com o tormento, Hope nunca queria ir para casa, ela sabia que a carnificina a esperava. A dor e o sofrimento causado por esse monstro imperativo levava-a a tentativas de suicídio e rituais nos quais ela se auto mutilava, Hope tinha perdido a esperança de ter um futuro minimamente próspero. Outsider tinha deixado em ruínas todos os sonhos e planos que tinha enquanto pequena, detinha todas as suas energias e expectativas. A pouca felicidade que lhe restava residia na colecção de memórias que trazia dos tempos que precediam o início do suplício interminável, ela costumava deitar-se no telhado e relembrar os sorrisos que tinham cessado com as aparições de Outsider. Numa noite, Hope olhou para ele e perguntou-lhe o porquê de ele lhe causar tanta amargura, ele não respondeu, agarrou nela e atirou-a contra a parede, ameaçou-a de morte e tomou proveito dela enquanto ela chorava desalmadamente, Hope passou a noite em branco, cobriu a cabeça com os lençóis e sussurrou para si mesma que iria acabar com a sua vida. Na manhã seguinte, uma manhã de sexta-feira Hope levantou-se aliviada de sua cama, preparou-se, mas não foi para a escola, não nesse dia. Ficou à espera que ele chegasse, ela queria que ele visse a sua morte e algo assim aconteceu, Outsider chegou ao seu quarto e tentou tomar posse dela como tinha feito quase todos os dias por múltiplos anos mas Hope gritou que não o merecia e que ele não lhe iria tocar mais uma vez, ele não hesitou e tentou forçá-la a render o seu corpo mas desta vez não iria acontecer, ela correu até à gaveta e tirou a sua pequena faca, usada nos seus rituais, e entre soluços e lágrimas ela gritou que se estava na altura da sua libertação. Sangue está espalhado na carpete, há um corpo estendido no chão do quarto, Hope está liberta, a sua alma ressuscitou e está finalmente em paz, Outsider está agora morto.
- Ecstasy Sullivan
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