Cobre-se de silencio.

Cobre-se de silencio, como um anjo num pedestal que alberga as suas asas cansadas. Vento. Apenas ouve o vento, enquanto embala a melancolia nos seus braços frios. Cobre-se então de silêncio porque já não chegam os dias e as noites, porque já não bastam as palavras ou meros pensamentos, resta-lhe apenas a furiosa ânsia. Procura em vão um lugar no qual os seus pés nunca tenham pisado, de uns lábios cujo sabor a sua língua nunca saboreou, cobre-se finalmente de silêncio porque ainda sente o cheiro do passado na noite, ouve os passos de um amor que nunca chegou a nascer e já adivinha a tua ausência. No seu sorriso morto trás a saudade, nos seus olhos, a esperança. Busca algo, algo que nunca encontrou, um lugar novo, uma vida diferente, e, enquanto espera que a maré lhe traga a mudança. Cobre-se de silencio, enquanto a amargura lhe corrói o sangue quente, numa angustia que envolve a sua existência numa miserável mancha de solidão. 

- Kasti Valo

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