Vida, débil vida.

Caminha pela amarga calçada um homem sublime, de olhos castanhos avelã que padeciam ao reflectir seu passado árido, negros cabelos longos de cachos encaracolados e lábios atormentados pela gélida aragem, Leonardo de Sousa Caetano era o seu nome. Nascido numa casa junto ao Douro no rigoroso Outono de 1989, fruto de um parto prematuro ao qual a sua mãe, Helena, não sobreviveu. 
Leonardo era indomável, talvez por ter tido uma infância árdua, sem protecção materna. O seu pai, Santiago Caetano, um apaixonado pela literatura, licenciado em direito, vivia angustiado, sempre preso à morte da sua esposa e perdia a sobriedade entre tragos de vinho e licor enquanto o seu filho passava as noites com uma ama.
Um pálido cigarro acompanha a sua passada demorada enquanto aconchega à sua pele macia a mão de sua amada Carolina, de pernas longas, esbeltas e frágeis que acarretam o peso de um efémero corpo que Leonardo tanto estimava. Conheceram-se na universidade, no curso de direito do qual acabou por desistir, repugnava-o ser de qualquer forma parecido ao seu pai.
Encontra-se agora sentado, a cadeira dobra-lhe a pele seca, os lábios estão secos, pregados um no outro, sente dor na garganta que desagrada como engolir xarope amargo, à espera que termine o horário de trabalho, passa os seis dias no mini mercado do pacato bairro junto ao seu, contudo odeia ter de falar com as pessoas, sorrir para quem não lhe sorri de volta, sempre quis ser maquinista de um comboio, perder-se na continuidade das linhas férreas  no entanto as viagens que faz são como passageiro. Após o percurso de regresso procura as chaves enquanto é  recebido pela sua mais fiel companhia, um felino pequeno de olhos esverdeados e pelo preto macio que todos os dias o esperava pacientemente deitado na carpete junto à porta da casa amarela em que viviam.
Chegado a casa pousa o casaco na cadeira mais próxima e acaricia graciosamente o seu ágil amigo de quatro patas, serve-se de uma fatia de bolo de chocolate que comprou numa pequena pastelaria a caminho de casa e senta-se à janela enquanto na sua aparelhagem giram canções de Carlos do Carmo, nunca faltou o fado no sossego da sua modesta casa.
O tic-tac violento do seu relógio de parede marca já as sete, mas hoje não há qualquer pressa, aquecerá para o jantar o arroz de pato que cozinhara no dia anterior. Depois da refeição caminha até ao pequeno bar em que costumava servir bebidas, não fosse hoje sexta-feira estaria já deitado com o gato aos seus pés, embalando o seu pensamento com um livro que requisitara na biblioteca do concelho.
Cansado depois de um dia de trabalho, Leonardo aconchega a cabeça na almofada, prepara-se para sonhar, não com a débil vida que tem, mas com a que gostaria de ter.

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